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"The evolution of thought: evolutionary origins of great ape intelligence". Anne E. Russon and David R. Begun (Eds). Cambridge University Press.

Nesta obra, Russon e colaboradores enfrentam uma das mais intrigantes questões da atualidade: a origem e a função da inteligência nos grandes primatas humanos e não humanos. O livro apresenta textos perspicazes e revisões sobre o atual entendimento das habilidades cognitivas dos grandes macacos, dos possíveis traços existentes no ancestral comum aos grandes macacos e humanos, e das pressões seletivas ecológicas, sociais e climáticas que contribuíram para a evolução dessa característica.

A edição é composta por três seções, cujos colaboradores são especialistas em antropologia biológica, paleontologia e primatologia. Fornece uma completa e fascinante análise da cognição (parte 1) e outras adaptações (parte 2) nos grandes macacos viventes, bem como interferências adaptativas dos ancestrais de macacos baseados em fósseis (parte 3). Este trabalho se firma por ser um importante material para cientistas com interesse na evolução da mente.

A primeira parte do livro traz uma excelente revisão, fornecendo uma refinada análise das habilidades manuais dos grandes macacos, associadas ao uso de ferramentas. Esta seção faz conjecturas à respeito da longa história evolutiva que forjou a sofisticada habilidade manual na linhagem dos grandes macacos. O livro segue com a discussão da organização social de babuínos Hamadryas (Papio hamadryas) e chimpanzés. O autor argumenta que o comportamento social entre os babuínos e os outros primatas segue, mais ou menos, uma seqüência estereotipada específica, num dado contexto. Nos grandes macacos esse comportamento social é considerado mais variável e flexível, necessitando de antecipação e planejamento. A primeira parte termina com a análise da comunicação gestual nos grandes macacos e pela revisão de sua cognição, comparada com as crianças humanas, em idade pré-escolar.

A segunda parte é composta por cinco capítulos tratando das adaptações mais específicas. Começa com uma revisão do nosso conhecimento, com relação ao tamanho, assimetria hemisférica e traços anatômicos específicos dos cérebros dos grandes macacos. O segundo capítulo alerta o leitor da importância de se considerar o cérebro e a evolução da cognição no contexto da história de vida do indivíduo. O terceiro capítulo traz uma revisão completa do uso de ferramentas e substratos para assegurar o alimento em ambientes naturais, nas várias espécies de macacos e grandes macacos. O capítulo da caça fornece uma revisão à respeito da locomoção arbórea nos grandes macacos, fazendo referências à hipótese de que o desafio dos grandes macacos para se movimentar em seu ambiente ecológico resultaram em uma vantagem seletiva para a habilidade de representar o próprio, em termos de postura e locomoção, no momento de planejar os movimentos. A seção termina com a discussão da relação entre ecologia (alimentos e predadores) e a organização social dos grandes macacos.

A seção final consiste em seis capítulos tratando das condições climáticas e ecológicas que foram experimentadas pelos macacos do Mioceno (época geológica do Período Terciário da Era Cenozóica que vai de 23 milhões à 5 milhões de anos atrás), junto com revisões de evidências quanto à evolução do cérebro e da história de vida dessas espécies. A seção termina com uma revisão do modelo de evolução de dominância ecológica nos hominídeos, resultando em um acirramento da competição social para o controle de recursos ecológicos.

O livro fornece uma revisão das pressões ecológicas, sociais e climáticas experimentadas pelos grandes macacos atuais e seus ancestrais, e inflama discussões quanto às conseqüentes adaptações ocorridas no cérebro, na cognição e história de vida desses animais. Esse livro é uma importante contribuição e deve ser lido por antropólogos, biólogos, primatologistas e psicólogos interessados na mente e na sua evolução.

O único inconveniente encontrado na obra é a inconsistência do uso de termos essenciais tais como ‘inteligência’, ‘planejamento’, ‘cognição’, ‘representação’, ‘ símbolos’ e ‘memória’ através dos capítulos, uma vez que não fica claro se o termo utilizado por um psicólogo tem o mesmo significado para um antropólogo. Essa dificuldade é comum a toda abordagem multidisplinar e demanda a homogeinização dos termos chaves para o progresso da pesquisa no campo da psicologia e ciências cognitivas.

* Modificado de David C. Geary (departamento de Ciências Psicológicas da University of Missouri at Columbia). Evolution and Human Behavior, 2005, 26 (2).

 

 

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