Por Jerônimo Teixeira e Marcelo Marthe - Revista Veja Economistas muitas vezes se tornam personalidades influentes e até poderosas. Alguns poucos atingem a popularidade. Com um blog na internet que já recebeu mais de 1 milhão de contribuições e um livro (como o blog, feito em parceria com o jornalista Stephen Dubner) que está há 29 semanas na lista dos mais vendidos do jornal americano The New York Times e há dezenove na lista de VEJA, Steven Levitt tornou-se uma figura única em sua especialidade: um economista pop. O segredo do seu sucesso está no modo provocativo como ele levanta as mais inusitadas perguntas sobre a vida cotidiana e na maneira como busca as respostas: pensamento simples, mas sempre amparado em dados. Freakonomics, o best-seller desse professor da Universidade de Chicago, convida o leitor a pensar livremente sobre os fatos do cotidiano – e a desafiar as explicações que o senso comum consagrou. O que é mais perigoso para uma criança: uma arma de fogo ou uma piscina em casa? Ao contrário do que se imagina, nos Estados Unidos há mais probabilidade de uma criança morrer afogada em uma piscina do que em um acidente com uma arma (no Brasil, em 2003, segundo dados da ONG Criança Segura, os afogamentos responderam por 25% das mortes acidentais de crianças, contra 1% por acidentes com armas). A maneira como Levitt exercita sua inquietude intelectual é um refresco diante de tantas obscuridades cultivadas pelos intelectuais. Seu trabalho é também um lembrete de como a economia, nas últimas décadas, ampliou seu campo de ação. "Estamos falando de uma ciência cujas ferramentas lógicas e estatísticas podem ser empregadas em quase todos os aspectos da vida moderna", disse Levitt a VEJA (veja entrevista). O lance mais ousado de Levitt foi sua análise da queda da criminalidade nos Estados Unidos nos anos 90. Ele descobriu um fator determinante dessa queda e que até então passara despercebido: a legalização do aborto, nos anos 70. No início da década de 80, chegou a ser realizado 1,6 milhão de abortos por ano. Com isso, preveniu-se o nascimento de uma legião de crianças pobres e indesejadas, geralmente filhas de mães solteiras – crianças que, pela fragilidade de sua situação familiar e social, teriam maior probabilidade de enveredar pelo crime na vida adulta. Em outras palavras, o crime diminuiu porque muitos criminosos não nasceram. Essa tese foi atacada por todos os lados. Os conservadores acusaram Levitt de ser um propagandista do aborto. A esquerda acusou-o de propor medidas racistas e eugenistas. Na verdade, Levitt não estava propondo coisa alguma: estava apenas analisando as evidências, de forma objetiva e sem preconceitos. Foi por sua capacidade de relacionar fatos inusitados que Levitt, bem antes de ser um autor best-seller, conquistou o respeito de seus pares. Em 2003, ele ganhou a prestigiosa medalha John Bates Clark, prêmio que destaca os melhores economistas com menos de 40 anos de idade. Não é um prêmio qualquer. A medalha Clark é uma espécie de ante-sala do Prêmio Nobel. Nada menos do que um terço dos ganhadores da Clark recebeu mais tarde também o Nobel. Quando se combinam, como no caso de Levitt, a medalha Clark e uma cadeira na Universidade de Chicago, as chances de ganhar o Nobel dobram. Portanto, não será surpresa se nos próximos anos Steven Levitt for agraciado com o prêmio concedido anualmente pelo Banco da Suécia em memória de Alfred Nobel. Levitt não é o pioneiro na aplicação da economia para desvendar o lado oculto do cotidiano. Ele mesmo reconhece um antecessor ilustre nesse trabalho, o ganhador do Nobel de Economia de 1992, Gary Becker. Desde os anos 50 Becker usa o instrumental econômico para explicar o mecanismo de questões que vão do preconceito racial à estabilidade do casamento. Os ganhadores do Nobel deste ano, Thomas Schelling e Robert Aumann, também são economistas da vida diária. Schelling usa instrumentos matemáticos como a Teoria dos Jogos para analisar da corrida armamentista ao uso de capacetes no jogo de hóquei. Não é falta do que fazer ou diletantismo desses brilhantes pesquisadores. Praticamente, a economia nasceu como ciência de uma observação muito aguda da psicologia humana e dos atos produzidos por ela. Foi o escocês Adam Smith (1723-1790), considerado o pai da economia moderna, o autor da tese de que um impulso psicológico individual poderia ter efeito sobre a prosperidade ou a ruína econômica de um país. Em sua obra Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, de 1776, Smith diz que as pessoas são individualistas e tendem a buscar sempre o que é melhor para elas. Agindo assim, azeitam a economia e fazem um bem a toda a comunidade. A explicação clássica do livro é a de que padeiro não acorda de madrugada para colocar a massa no forno por amor ao estômago de seus clientes – mas pelo dinheiro que ele receberá deles. Smith é um ascendente de Levitt na medida em que a psicologia só lhe interessava quando produzia uma ação. Outra tirada clássica de Smith: tanto faz se um miserável sonha em ser rei e em andar de carruagem puxada por seis cavalos, "o que interessa para a economia é onde ele vai gastar suas poucas moedinhas". Diz o economista brasileiro Eduardo Giannetti, do Ibmec: "Adam Smith era um psicólogo de muitos recursos. Quando leio suas obras, ainda acho que ele está bem à frente da pesquisa que é feita hoje em dia". Depois de séculos de pureza econométrica, a visão humana de Adam Smith sobre os fenômenos da vida volta a ocupar lugar central na ciência econômica. "Existe uma percepção psicológica na base da economia clássica que é muito mais perspicaz do que a encontrada em outras ciências sociais, como a sociologia e a antropologia", diz o zoólogo e jornalista inglês Matt Ridley, autor de livros como As Origens da Virtude, que aproximam os achados da biologia darwinista e da economia liberal. De fato, a versatilidade do pensamento econômico tem raízes profundas na natureza de homens e mulheres: será difícil encontrar um comportamento humano que não tenha uma dimensão econômica – mesmo que o dinheiro não esteja envolvido. As pessoas estão constantemente fazendo avaliações de custo e benefício, respondendo a incentivos e evitando punições no esforço de maximizar (para usar um verbo caro ao economês) seu bem-estar. Isso vale até para o comportamento sexual. No seu livro Sex and Reason (Sexo e Razão), o jurista americano Richard Posner – uma autoridade na aplicação da ciência econômica à análise de problemas legais – utiliza uma lógica de mercado para explicar traços do comportamento sexual. O sexo, afinal, tem seus custos, sobretudo na forma do risco de gravidez ou de doenças sexualmente transmissíveis – e, nas puladas de muro, o risco dos desentendimentos e brigas. Na visão de Posner, a crescente liberação sexual do século XX pode ser explicada por um mecanismo simples: métodos contraceptivos mais eficientes tornaram o sexo mais "barato". A mesma lógica de mercado explicaria por que certas cidades – como São Francisco, nos Estados Unidos – se convertem em "capitais gays": para minorias sexuais, faz mais sentido viver em comunidades, pois a proximidade dos parceiros potenciais e o uso dos mesmos signos e símbolos na comunicação tornam o sexo mais acessível e, portanto, mais "barato". Juiz federal nos Estados Unidos, Posner acredita que o pensamento econômico pode ser muito útil nas decisões jurídicas, inclusive em tópicos controversos como o aborto e o casamento entre homossexuais. A economia ajudaria a pesar os custos e os benefícios envolvidos em qualquer decisão jurídica, facilitando a aprovação de leis mais eficientes. Um bom exemplo é a política de adoção: as pessoas que querem adotar uma criança são proibidas por lei de pagar à mãe biológica que deseja entregar seu filho para adoção. Essa é uma medida de controle de preços. Claro que muita gente acaba pagando por uma criança, por baixo do pano, para acelerar o processo. Mas isso aumenta o custo da transação e inibe o processo de adoção em prejuízo dos futuros pais e dos bebês sem lar. Do ponto de vista econômico, o controle de preços é sempre ineficiente. Posner e Levitt são ambos pais de crianças adotadas. Ambos concordam que o mais racional seria deixar outras veleidades de lado e fazer passar leis que legitimem o ato de pagar por uma criança. É uma medida altamente controvertida – mesmo que ela não tenha um único átomo da famosa e cruel sátira Uma Modesta Proposta, de Jonathan Swift (1667-1745). Nessa obra, Swift, o autor das Viagens de Gulliver, sugeria como solução para acabar com a miséria da Irlanda que certo número de criancinhas pobres fosse destinado à alimentação dos ricos. A respeito da adoção, muitos argumentam que pagar por uma criança não é moralmente aceitável. Posner discorda: "Eficiência e moralidade quase sempre andam de mãos dadas", diz. Ele lembra que, na verdade, os pais adotivos não estariam "comprando" uma criança: eles estariam pagando apenas pelos direitos parentais. As avaliações emocionais muitas vezes perturbam a análise ponderada dos dados, e é nesse ponto que a perspectiva econômica pode ser esclarecedora. Grande parte da graça da coluna que Levitt e seu parceiro Dubner assinam no The New York Times Magazine está na ironia analítica com que esses textos iluminam as pequenas irracionalidades cotidianas. Foi o caso, por exemplo, do ensaio sobre eleições americanas. Nos Estados Unidos, o voto não é compulsório como no Brasil, e a cada eleição há sempre grande especulação sobre por que ocorrem índices de abstenção tão altos. Na perspectiva de Levitt, porém, a pergunta deve ser invertida: por que, afinal, alguém gastaria seu tempo deslocando-se até uma seção eleitoral e enfrentando a fila até a cabine de votação? O eleitor americano que conduzisse uma fria avaliação de custo e benefício jamais sairia de casa – afinal, ele tem direito a apenas um voto, cuja influência no resultado da eleição é praticamente nula. Por que, então, tantos americanos ainda se dão ao trabalho de votar? Levitt acredita que os benefícios talvez estejam no reconhecimento social que o votante recebe como alguém que cumpre seu "dever cívico". Mas também é possível que o eleitor aposte em um benefício ilusório, comparável à compra de um bilhete de loteria. As chances de ganhar na loteria são estatisticamente ínfimas, mas o apostador compra o direito de sonhar que ficará rico – assim como o eleitor, na comparação inspirada de Dubner e Levitt, sonha que seu voto faz alguma diferença efetiva na política nacional. Os cálculos de custo e benefício que todos conduzem no dia-a-dia estão ainda mais sujeitos ao engano quando se enredam em uma emoção básica e premente – o medo. A comparação entre os riscos de uma piscina e de uma arma é um bom exemplo. A arma é um objeto que levanta muitas reações emocionais – é um tanto mais raro que alguém tenha objeções morais a um piscina. No entanto, o perigo objetivo da piscina para uma criança é cerca de 100 vezes maior do que o da arma. Os pais, ensina Levitt, passam tempo demais temendo as coisas erradas. Os governos, com toda a sua pesada máquina administrativa, tampouco revelam muita sensatez na avaliação de riscos. O Estado tem de estar preparado para grandes catástrofes – terremotos, furacões, inundações, epidemias, ataques terroristas. No meio dessa vasta gama de possibilidades, estabelecer prioridades de investimento é uma tarefa difícil. Posner dedicou todo um livro, intitulado Catástrofe, ao problema da racionalização econômica na prevenção de desastres (incluindo aí asteróides vindos do espaço). Recentemente, ele voltou ao tema em um artigo na revista New Republic, para discutir as evidentes falhas do governo americano no socorro às áreas atingidas pelo furacão Katrina, especialmente Nova Orleans. Na visão de Posner, há três fatores econômicos básicos a considerar na avaliação de uma catástrofe potencial: a probabilidade de que ela aconteça, o custo de sua prevenção e o prejuízo que ela pode causar. Um estudo realizado em 1998 em Nova Orleans estimava o custo de medidas de recuperação de ecossistemas da costa que poderiam diminuir o risco de enchente: 14 bilhões de dólares. Esse montante nunca foi investido – e, na avaliação de Posner, nem deveria ter sido: era uma soma muito alta para uma diminuição pequena na probabilidade de inundação. No entanto, as agências governamentais falharam, e feio, ao não prever planos de emergência para socorrer a cidade em caso de catástrofe. Essa negligência em parte se explica pelo gigantismo vagaroso dessas agências. Mas também há uma limitação natural envolvida: a mente humana, observa Posner, não está acostumada a pensar em termos de probabilidade. Se um evento como a inundação da cidade nunca ocorreu, por que se preocupar com ele? O pensamento econômico oferece ferramentas para avaliar essas ameaças potenciais. Steven Levitt presta um serviço ao tirar as ferramentas econômicas dos especialistas e torná-las acessíveis a mais gente. O SENHOR DIZ QUE OS INCENTIVOS SÃO A PEDRA DE TOQUE DA VIDA MODERNA. PODE EXPLICAR ESSA IDÉIA? A ECONOMIA REALMENTE EXPLICA TUDO? POR QUE SEU INIMIGO DECLARADO É O QUE CHAMA DE SABEDORIA CONVENCIONAL? VIOLÊNCIA E CRIMINALIDADE SÃO TEMAS CONSTANTES PARA O SENHOR. RECENTEMENTE, HOUVE UM REFERENDO SOBRE A PROIBIÇÃO DA VENDA DE ARMAS NO BRASIL. A IDÉIA NÃO FOI APROVADA – MAS, SE FOSSE, PODERIA REDUZIR O CRIME? EXISTE ALGUM ELO ENTRE O DESEMPREGO E A CRIMINALIDADE? QUE CONSELHOS O SENHOR DARIA AOS GOVERNANTES DE METRÓPOLES CERCADAS DE FAVELAS DOMINADAS POR TRAFICANTES? NUM LIVRO EM QUE USA A ECONOMIA PARA EXPLICAR O COMPORTAMENTO AFETIVO E SEXUAL, RICHARD POSNER DEFENDE A CRIAÇÃO DE UM MERCADO DE COMPRA E VENDA DE CRIANÇAS ABANDONADAS. COMO ECONOMISTA E PAI DE UMA CRIANÇA ADOTADA, O QUE O SENHOR PENSA DISSO? QUE TIPOS DE CONSELHO SE DEVEM DAR AOS FILHOS?
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