Por Jerônimo Teixeira. Publicado na revista VEJA, edição 1922 – 14/09/2005 A biologia é hoje a mais expansiva das ciências. A psicologia evolutiva, disciplina biológica que busca explicar o comportamento humano a partir da teoria da evolução de Charles Darwin, tem disputado espaço com a antropologia, a sociologia, a psicanálise. E agora tem entrada até nos estudos literários. Críticos como Brian Boyd, da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia – conhecido por uma respeitada biografia do escritor russo Vladimir Nabokov –, e Joseph Carroll, da Universidade de St. Louis, nos Estados Unidos, já se converteram às hordas darwinistas. Ao lado de alguns densos livros acadêmicos, a crítica biológica também conta com uma divertida obra de divulgação para o leigo: Madame Bovary's Ovaries (em português, Os Ovários de Madame Bovary), lançado há pouco nos Estados Unidos pelos biólogos David e Nanelle Barash, pai e filha. Como bons darwinistas, os Barash ressaltam a continuidade entre o homem (no caso, os personagens literários) e as demais espécies animais – todos sujeitos ao imperativo de propagar seus genes por meio da reprodução. Portanto, a competitividade sexual dos elefantes-marinhos teria algo a ensinar sobre o ciúme de Otelo, e o adultério de Emma Bovary não seria diferente da promiscuidade de um melro fêmea. Se o trágico personagem de William Shakespeare sucumbe ao ciúme e esgoela sua inocente esposa, Desdêmona, é porque foi dominado pela insegurança biológica própria de seu gênero. Tão competitivo quanto um leão-marinho, Otelo sabe que todos os machos a seu redor estão de olho na sua jovem mulher, que, afinal, é dotada de belos atributos genéticos. O ciúme, em suma, é um dado natural. Para um vilão como Iago, nada mais fácil que usá-lo para manipular o pobre Otelo. As razões do adultério feminino ainda são motivo de discussão entre psicólogos evolutivos. Mas, no caso célebre de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, está claro que a protagonista busca amantes mais atraentes (e ricos) do que o chocho Charles Bovary. Homens atraentes têm os genes necessários para produzir filhos atraentes, o que aumenta as chances de Emma Bovary passar a sua própria carga genética adiante (não vem ao caso que o objetivo imediato da adúltera não seja ter filhos: embora desprezem Freud, os darwinistas acreditam, sim, no inconsciente). A escolha do parceiro ideal, no casamento ou fora dele, é uma questão biológica fundamental. Detentora do recurso natural mais valioso, o óvulo, em geral é a mulher que exerce a prerrogativa de escolher o parceiro – um princípio que é ilustrado de forma admirável pelas heroínas casamenteiras e delicadamente calculistas dos romances da inglesa Jane Austen. Para que uma crítica darwinista seja realmente possível, ainda há questões básicas a responder. Nem sequer se sabe qual é a função da arte e da literatura na evolução humana. O cientista canadense Steven Pinker, estrela da psicologia evolutiva, sugere que a arte não é muito diferente de uma boa fatia de cheesecake – apenas uma forma concentrada de estimular os centros de prazer do cérebro humano. O crítico Joseph Carroll discorda. A imaginação literária, diz ele, seria essencial para a perfeita adaptação do ser humano ao mundo. De qualquer modo, a biologia não oferece (e nunca oferecerá) critérios para distinguir uma obra clássica de uma efêmera – os mecanismos por ela descritos funcionam tanto em Shakespeare quanto em livros menores como O Poderoso Chefão, de Mario Puzo, utilizado pelos Barash para ilustrar as vantagens genéticas de proteger a própria família. A literatura confirma conceitos científicos? Sim, mas bons livros também servem para validar teses históricas, econômicas, sociológicas. É a literatura que ainda tem muito a dizer sobre a biologia, e não o contrário.
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